Fotos Públicas/Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil 14556276030161 Médica diz que outras doenças foram erradicadas com vacina

O combate aos criadouros do Aedes aegypti no Brasil é necessário, mas dificilmente será capaz de erradicar o zika vírus, uma das doenças que, assim como a dengue e a febre chikungunya, é transmitida atualmente pelo mosquito.

Para isso, o melhor caminho é a descoberta de uma vacina eficaz e acessível, segundo a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e membro do Comitê Técnico Assessor de Imunizações do Ministério da Saúde.

— Ainda sabemos muito pouco sobre o zika vírus, mas é obvio que seria a melhor forma de prevenção, se houvesse uma vacina eficaz, específica contra esse vírus e que desse boa proteção e imunidade duradoura. 

Ela considera que a erradicação da epidemia de zika vírus pode ocorrer da mesma maneira que outras viroses foram vencidas: por meio de imunização.

— Em termos de saúde pública não seria só esse exemplo (zika), temos vários outros como da paralisia infantil, poliomielite e síndrome da rubéola congênita que o País conseguiu realmente erradicar através da imunização.

Combate benéfico

Esse trabalho de "formiga" para erradicar o mosquito é útil, necessário, mas insuficiente. Combater criadouros, remover poças de água parada, acabar com qualquer tipo de foco é um ato que beneficia na prevenção das doenças, mas não elimina o Aedes aegypti, conforme ressalta o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da SBim (Sociedade Brasileira de Imunizações).

— Do jeito que vivem as comunidades atuais, com populações crescentes, crescimento desordenado das grandes cidades, campanhas de combate podem diminuir a incidência das doenças, mas não extinguir. Erradicar o mosquito e acabar com o vetor é impossível. Claro que esse combate beneficia, precisa ser feito, dentro de uma combinação de estratégias que, junto com a vacina, poderão fazer com que haja um controle das doenças.

O médico considera que uma vacina direcionada ao zika vírus demorará pelo menos três anos para estar acessível à população, do ponto de vista comercial. E mesmo assim, segundo ele, a imunização não estará disponível para todos, devendo atender a setores mais vulneráveis, como de mulheres grávidas ou em idade fértil, já que a relação entre a infecção pelo zika e casos de microcefalia verificados no Brasil a partir de 2015 está sendo pesquisada pela comunidade científica internacional.

Kfouri não vê nem mesmo uma vacina como instrumento de erradicação da doença, mas sim de controle, principalmente de suas formas mais graves. Ele destaca a diferença entre os conceitos de erradicação de uma doença e superação de um surto. Comenta, por exemplo, o fim da epidemia de ebola na África, anunciada no início de 2016, ressaltando que, em relação ao zika vírus, é uma doença de diferente forma de contaminação.

— Na África, o surto de ebola acabou, mas a doença existe. Os casos em humanos desapareceram. É uma doença com diferentes hospedeiros intermediários nas quais animais também adoecem, mas, futuramente, ela poderá atacar novamente humanos, em outro surto.

Rosana, por sua vez, considera difícil a superação do zika vírus (e outras viroses vindas do Aedes) apenas por meio de combate a criadouros.

— Não posso dizer se a campanha é capaz de erradicar, mas diria que é um desafio muito grande. Não tenho uma visão tão otimista por todo o histórico em relação a essas doenças. Mesmo com o que foi feito até hoje não estamos conseguindo fazer direito. O Aedes é um mosquito bastante adaptável e isso dificulta a ação.

Nem a vacina será a salvação se todos os critérios não forem atendidos, segundo a especialista.

— Não basta ter uma vacina, é preciso que ela seja eficaz, de uso para todos, que proteja por um bom tempo. Tudo isso envolve fatores como custos para que possamos vislumbrar algo para o futuro.

Não é a primeira vez que se fala em superar surtos de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti no Brasil. A dengue é um exemplo de virose que tem retornado em ciclos ao País. Nas duas últimas décadas, quando não havia vacina (agora uma está sendo implementada), dois surtos foram erradicados, mas a doença voltou a se manifestar de maneira crescente em períodos posteriores.