Fim da necessidade de diploma divide opiniões de alunos de jornalismo

  • annaclaudia
  • 20/06/2009 15:05
  • Brasil/Mundo

O fim da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista dividiu as opiniões no mundo acadêmico. Professores e alunos consultados pelo G1 disseram temer que a decisão tomada quarta-feira (17) pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) enfraqueça a classe. Outros acreditam que o mercado de trabalho permanecerá o mesmo.

O estudante de jornalismo Rahal Ahmad, de 21 anos, ficou desanimado com a notícia. “É muito ruim, pois pode fechar algumas portas, mas acho que as grandes empresas jornalísticas manterão a exigência do diploma”, comentou.

A aluna Aline Lamas, de 19 anos, teme o enfraquecimento da classe. “Isso dificulta a regulamentação da profissão”, disse. “Aprendemos muitas coisas na faculdade, como sociologia e psicologia. Acho complicado alguém escrever sem essa base.”

Gabriela Rangel, de 20 anos, concorda com sua colega. “Essa decisão [do STF] não deverá melhorar a qualidade do jornalismo. É importante o profissional ter noção da teoria que só se adquire na faculdade.”

A opinião da jovem vai contra a do presidente do STF, Gilmar Mendes. Na quarta-feira, ele afirmou que, a seu ver, o fato de um jornalista ser graduado não significa mais qualidade na área. “A formação específica em cursos de jornalismo não é meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros.”

No terceiro ano de graduação, o futuro jornalista Greg Fernandes, de 22 anos, concorda com a decisão de Mendes. “Não precisa de faculdade para saber como apurar uma notícia. Não é certo só jornalistas escreverem nos jornais”, afirmou.

Apesar de o diploma não ser mais necessário, nenhum dos estudantes ouvidos pensa em desistir da formação superior.

Cursinho

A decisão do STF também repercutiu entre alunos de cursinho que se preparam para entrar na faculdade de jornalismo. Amanda Nogueira, de 19 anos, disse ser a favor do fim da necessidade do diploma. “Apesar de aumentar a concorrência, isso irá melhorar a qualidade da informação”, disse.

Opinião reiterada por Pablo Sansuste, de 19 anos: “Isso acaba com o intermediário. Não precisará do jornalista para chegar até a informação. [As empresas] vão direto para quem sabe do assunto.”

Já a universitária Laura Salerno, de 18 anos, disse acreditar que a situação nas empresas permanecerá a mesma que a atual. “Acho que isso não afetará o mercado de trabalho. Mas o jornal terá a liberdade de chamar um especialista [sem diploma de jornalismo] para cobrir determinado assunto.”

 

Docentes


Professores de jornalismo mostraram-se apreensivos em relação às consequências da medida no campo profissional. Segundo o professor do Mackenzie Edson Capoano, de 30 anos, a questão salarial poderá ser motivo de preocupação no futuro. “Espero que [o fim da necessidade de diploma] não seja uma maneira de baixar salarialmente o piso da categoria”, afirmou. “E que as redações não se transformem em redutos de especialistas com chefes interessados em publicidade”, acrescentou.

Da parte dos alunos, Capoano percebeu um certo receio em relação à medida. “As novas gerações estão receosas a respeito de que mercado de trabalho vão encontrar e alguns alunos, mais inseguros, questionam até ficar na faculdade”, revelou.

A diretora do Centro de Comunicação e Letras do Mackenzie, Esmeralda Rizzo, de 52 anos, ressaltou a importância do diploma, independente se ele é ou não obrigatório. “A oferta de trabalho será muito grande, e ela será avaliada”, afirmou. “O diploma será um diferencial”, concluiu.

 

Questionada por alunos sobre a necessidade da formação superior, a coordenadora de jornalismo das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Márcia Furtado, 51, afirmou: “O aluno frequenta a faculdade para ir atrás de uma carreira, não de um diploma”.

Para a professora, o jornalismo não é um curso técnico, “ao contrário do que pensam os ministros [do STF]”. “Formamos cidadãos críticos capazes de mostrar a realidade da forma mais imparcial possível”, comentou. “Temos na faculdade um preparo humanístico, uma base cultural forte, para compreender o mundo em que vivemos.” 

O professor Rodolfo Carlos Martino, coordenador de jornalismo da faculdade de comunicação da Metodista, criticou a decisão dos ministros do STF. “Ela [a decisão] aposta no retrocesso e tenta de uma maneira contundente banalizar o fazer jornalístico.”

Como solução para essa medida, Martino apontou a luta pela regulamentação da profissão. “Essa é uma luta muito antiga, que vem desde 1918, quando aconteceu o primeiro congresso da Associação Brasileira de Imprensa”, disse. “Devemos lutar pela regulamentação da profissão para tirar o jornalismo dessa terra de ninguém”, completou.