Efeito das viagens de Lula nem sempre é expansão do comércio exterior

  • antoniomelo
  • 21/06/2009 10:01
  • Política
Presidente da República com o maior número de viagens no currículo, Luiz Inácio Lula da Silva costuma se autodenominar um caixeiro-viajante e se orgulhar, em discursos, de divulgar os produtos nacionais em lugares onde governantes brasileiros nunca estiveram.

Mas os dados da balança comercial mostram que o crescimento (ou redução) do intercâmbio do Brasil com esses países, não tem, necessariamente, relação com as visitas presidenciais.

Entre os destinos  “inexplorados” antes de Lula, estão muitos países do Oriente Médio e África - na última terça (16), o rol de países visitados por um chefe de Estado brasileiro incluiu o Cazaquistão, na Ásia.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC) mostram que, enquanto no Oriente Médio o saldo da balança comercial (exportações menos importações) aumentou 34,42% entre 2003 e 2008, no continente africano, a despeito do aumento das exportações em muitos países, a queda na balança foi de 81%.

Nesse período, Lula fez 19 viagens a 15 países africanos e seis a nações do Oriente Médio. Para efeito de comparação, entre os cinco países mais visitados pelo atual presidente desde o primeiro mandato – Argentina, Estados Unidos, Bolívia, Venezuela e Chile - o comércio avançou 17,49% nesses seis anos.

É pouco se comparado à expansão do comércio do país com os países do chamado Bric (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China) onde, segundo o governo, houve incremento de 500%.

Isso se dá porque, segundo o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Welber Barral, muitas das visitas do presidente a parceiros comerciais tradicionais, como Argentina e Estados Unidos, têm outro caráter, como a resolução de problemas nem sempre relacionados ao comércio.

Já as viagens a parceiros não-tradicionais, segundo Barral, fazem parte da política de redefinição de mercados e avanço em regiões pouco exploradas, sobretudo na América Latina, Ásia e África.

“Há oito anos, o comércio com a África era inferior a 8%. Hoje estamos falando de US$ 10 bilhões em exportações, normalmente de produtos industriais, como alimentos industrializados, remédios e até aviões.”

A presença de Lula, segundo o secretário de Comércio Exterior, também se justifica pela popularidade que conquistou como liderança regional.

“A presença do presidente, com a popularidade que ele tem, transmite a importância que está dando para esses países, onde as decisões comerciais dependem muito do Estado.”

Ele cita como exemplo a China, país que se tornou o segundo parceiro comercial do Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos. “A boa vontade dos chineses [com o Brasil] é uma coisa inédita.”

Para Thomaz Zanotto, da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), é inquestionável que a figura “emblemática” de Lula deve ser levada em conta.

“Por ser uma pessoa respeitada lá fora, [Lula] cria o que chamamos de soft power, um ambiente propício para a paridade de condições”, diz o diretor-adjunto do Departamento de Comércio Exterior da instituição.

Nesse sentido, afirma Zanotto, a única região em que a política de expansão de mercados brasileira obteve um "sucesso incontestável” foi a América Latina, onde, ele diz, o país conseguiu ampliar suas exportações e  “comanda superávit com a maior parte dos países”.

Em contrapartida, o diretor de Comércio Exterior vê perda de posições do país em mercados do Primeiro Mundo para concorrentes como a China. “E tendo a discordar do governo brasileiro que os negócios com a China são excelentes. Não estamos vendendo nada. Eles [chineses] é que estão comprando.”

Para o cientista político Amaury de Souza, o país perde ao misturar geopolítica e comércio, relação em que, segundo ele, as prioridades do primeiro acabam prevalecendo sobre o segundo.

“Tanto o presidente quanto o país perdem muito tempo com mercados muito pequenos. Basta ver o quanto de atenção que demos a mercados no Oriente Médio e aos Estados Unidos, que é o maior mercado do mundo. É uma diferença gritante.”

Ele ressalva a importância de o país ter um presidente que dá atenção à política externa. “O país precisa lugar para ter seu lugar ao sol no cenário internacional. Tivermos a sorte de ter dois presidentes interessados em política externa. O último dirigente brasileiro que tinha uma visão internacional foi D. Pedro 2º. Getúlio Vargas ficou no poder 15 anos e foi uma vez à Argentina e duas ao Uruguai.”

O cientista político, no entanto, é cético quanto aos resultados das viagens em dividendos comerciais.

“A China se implantou em todos os países da África, inclusive em Angola. O Brasil faz discurso e não resulta em nada ou em muito pouco pelo esforço feito. Isso se deve à subordinação do comércio exterior pela política externa. A China não vai lá para vender a amizade entre os povos, vai para vender mesmo”, diz Souza, que acaba de lançar “A Agenda Internacional do Brasil”.

“O fato de o presidente estar rodando para baixo e para cima, não quer dizer que esteja aumentando a importância do Brasil.”