Luiz Cezar Fernandes: “Regulação não resolve o problema”

  • eduardocardeal
  • 28/06/2009 06:19
  • Brasil/Mundo
À espera só da autorização do Banco Central para voltar ao setor bancário, depois de um hiato de 10 anos, o banqueiro Luiz Cezar Fernandes, fundador do Pactual e do antigo Garantia, voltou disposto não só a operar o MTT Banco, surgido da compra da antiga subsidiária brasileira do alemão Dresdner Bank, em fevereiro. Executivo conhecido tanto pelo arrojo nos negócios quanto pela verve sincera, Luiz Cezar – como simplesmente prefere ser chamado – também voltou definitivamente ao debate. Em entrevista ao Jornal do Brasil despeja sobre a reforma do sistema de supervisão bancária dos Estados Unidos um arrazoado de críticas com peso proporcional aos rasgados elogios ao modelo regulatório do setor financeiro do Brasil. Para Luiz Cezar, com políticas fiscal e monetária acertadas, o governo criou as condições para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil crescer 1% neste ano, taxa acima da média dos demais países. Em 2010, no entanto, prevê o banqueiro, o Brasil vai crescer 2%.

Qual sua avaliação sobre o novo modelo de supervisão bancária nos Estados Unidos?

A meu ver, regulação não resolve o problema. O que resolve o problema é controlar adequadamente os mercados. E isso acontece no Brasil. A nossa legislação é antiga, só que aqui os órgãos reguladores atuam em cima – Banco Central, CVM etc. Então, esse excesso de regulamentação que botaram não vai resolver, porque, sem fiscalização eficiente, com o tempo você descobre furos.

Se fossem obedecidas as regras do Acordo de Basiléia, nada disso teria ocorrido?

Sim, nada disso teria ocorrido. Mas todo mundo descobriu como “furar” a Basiléia. É preciso ter presença como tem a autoridade brasileira. O que eu acho que fizeram de correto foi transferir para o Fed (o banco central americano) a fiscalização que era dividida com a Superintendência de Bancos. Agora vai ocorrer em um lugar só, como no Brasil.

Quais as falhas do novo modelo americano?

A principal falha é que ele não diz como será a fiscalização. Não cria um ambiente para fiscalização. Nos EUA há 16 mil bancos e cada regional do Fed deve dispor de uns 100 funcionários. Então, não sei como vão fiscalizar os bancos.

A adoção desse modelo nos EUA, a meca do liberalismo, pode criar um precedente de maior restrição no mundo?

Acho que não. Logo vai ficar evidente a ineficácia das medidas.

A tendência da Europa será seguir o modelo americano?

Deverá ser muito similar ao dos EUA, só que com muito mais especificidades. Se a legislação americana tem 10 itens, a europeia terá 100. Mas também deverá enfrentar o problema dos EUA, de não ter autoridade moral para coibir tentativas de burlar a lei. Em menos de cinco anos não adquirem essa moral.

O que vai ficar dessa crise, na prática?

Um crescimento mundial muito baixo por cinco anos. Nos próximos três anos, o mundo não cresce, na média, mais do que 1%. A China vai crescer 9%; o Brasil, 3%, mas muitos países vão ficar negativos em 2010 e 2011, como os EUA. Metade da Europa, também – Itália, Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda vão entrar 2011 no negativo.

Críticos advertem que alguns sinais de recuperação, tanto nos emergentes quanto nos EUA, podem adiar reformas necessárias para um modelo de regulação bancária supranacional. Você concorda?

Acho que essas reformas não saem nem em sonho. Os mercados e os países têm culturas diferentes. É impossível colocar todos no mesmo saco. Você acha que o Brasil vai se ajeitar com Bolívia, Peru e Venezuela? A China não vai entrar em uma bota 21, calçando 42.

E a perspectiva para o Brasil?

Tenho esperança de ver um segundo semestre bem mais dinâmico do que o primeiro. Não me surpreenderia se encerrarmos o ano com crescimento próximo de 1% – entre 0,5% e 1%, apesar do 0,8% negativo do primeiro trimestre.

Então, o pior já passou?

Sim. Alguns setores ainda vão sofrer muito, mas o Brasil como um todo começa a ficar bem.

Essa estimativa do PIB pressupõe que já estamos em crescimento no segundo trimestre?

Acho que já vamos fechar com crescimento de 1% no segundo trimestre. No terceiro, deveremos fechar com 2,8% ou 2,9%, enquanto no último, pouco mais de 3%. Para 2010, acredito que não vamos crescer 3,5%, mas de 2% a 2,5%.

A redução da arrecadação de impostos pode comprometer a recuperação?

Não vejo problema algum. Nosso endividamento está mais baixo, tanto interno quanto externo. Mesmo que feche este ano com déficit primário, não vejo problema.

E juros? Está correta a atitude sinalizada pelo BC de cortes moderados daqui para frente?

Quando disse em janeiro que o juro estaria em um dígito no segundo semestre, todos me criticaram. O BC agora deve reduzir o juro em ritmo bem menor, de 0,25 ponto a 0,5 ponto percentual. No fim deste ano, a Selic não deve ficar menor do que 8,75%. Acho que ainda é alta, mas o Brasil tem que trabalhar com taxas ainda altas por um tempo.

E como estão os negócios, agora que está de volta ao setor bancário?

Aguardo só um retorno do BC para começar a trabalhar normalmente. Por enquanto estou olhando a banda passar sem poder fazer nada. É um processo normal, burocrático, que leva 120 dias. Já se passaram uns 40. Então, acho que devemos aguardar só mais 60 dias.