LUIZ FLÁVIO GOMES, jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no institutoavantebrasil.com.br

 

Pere Navarro, na Espanha, é uma espécie de “guru exitoso do trânsito”. Foi diretor geral de tráfico de maio de 2004 a fevereiro de 2012. Espanha conseguiu reduzir pela metade as mortes no trânsito. É um exemplo de sucesso nessa área.

 

Sua receita, registrada no EL País de 11.05.12, p. 21, é a seguinte: para se construir uma profícua política de segurança viária deve-se dimensionar o tamanho do problema, ou seja, é preciso saber todas as cifras, dados e indicadores sobre o assunto. O povo não tem ideia de quantas pessoas morrem ou ficam feridas no trânsito anualmente. Todos devem se conscientizar da magnitude da tragédia.

 

Em seguida é preciso colocá-la sobre a mesa (assim como nas estradas, informando tudo) e abrir o debate. Enquanto escondemos os graves problemas do país nenhuma solução aparece. Não se pode abafar a mortandade com a desculpa de que é o preço que se paga pelo progresso.

 

A transparência na informação e a clareza dos objetivos ajudam a criar um clima de confiança (o problema é de todos e nada deve ficar escondido). Todos devem ir na mesma direção. Mas é importante que opinem com base nos dados objetivos. Com base no debate constrói-se um discurso, tido como razoável.

 

Em seguida vem a adoção das medidas necessárias para dar credibilidade ao discurso, com a mobilização máxima possível. O sistema de perda de pontos tem que funcionar corretamente, assim como: maior controle da alcoolemia, mais radares para o controle da velocidade, aumento do número de policiais e eventuais modificações na lei. Tudo tem que ter seriedade e coerência.

 

O eixo do discurso (que não pode virar pura retórica) é o seguinte: os acidentes são evitáveis e se outros países conseguiram reduzir as mortes, nós também podemos alcançar o mesmo objetivo (autoestima coletiva). O ingrediente ético do movimento tem que ficar muito patente (preservação de vidas, respeito às pessoas).

 

Sem a mobilização de toda sociedade civil pouco se pode esperar. Todo programa de governo exitoso tem que ter seguidores, em massa. A relevância aqui dos meios de comunicação é indiscutível.

 

Em lugar de buscar culpados, temos que tentar resolver o problema. O culpado, claro, sempre será o “outro” (o pedestre culpa o motorista, o motorista culpa o governo, o governo culpa os usuários das vias públicas e a educação etc.). Na verdade, a segurança viária é de responsabilidade compartida (entre todos).

 

Cada um deve assumir sua responsabilidade (os fabricantes devem fazer carros mais seguros, o governo deve conservar as estradas, os motoristas devem ser responsáveis, as autoescolas devem formar bons motoristas etc.). Tudo deve funcionar como uma orquestra (sem desafinar).

 

Quando não fazemos coisas básicas (respeitar os limites de velocidade, jamais beber e dirigir, colocar cinto de segurança, colocar capacete etc.), é claro que nada muda. Basta fazer o que temos que fazer e tudo se altera, positivamente. As normas de trânsito não são um capricho. Todos devemos observá-las, para o bem geral.

 

Como fazer cumprir as leis? Outra mobilização nacional. Controle do álcool e da forma de conduzir, uso do cinto de segurança e velocidade adequada: o essencial não pode sair do nosso campo de visão. Todos temos que remar na mesma direção. Daí a importância de se saber aonde queremos chegar. Se não sabemos para aonde vamos, nenhum vento nos ajuda (Sêneca).