As manifestações contra o aumento das tarifas de transporte coletivo, eclodidas em várias cidades do país no curso dos últimos meses, têm chamado bastante atenção. Manifestações parecidas já aconteceram no Brasil, a exemplo da “Revolta do Vintém”, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, quando os resultados dos protestos conseguiram revogar o aumento da tarifa de bondes e derrubar o Ministério que estava no poder. Na primeira metade da década de 1980, protestos contra o aumento das tarifas de ônibus, intercalados por pichações e outras manifestações, compuseram o contexto de combate à ditadura civil-militar e fizeram parte do processo de redemocratização em várias cidades do país. E, mais recentemente, houve a “Revolta do Buzu”, ocorrido na cidade de Salvador, em 2011. Essas revoltas e manifestações, não obstante suas especificidades, têm em comum o combate ao aumento das tarifas de transporte coletivo.

No caso das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, a visibilidade alcançada pelas manifestações ocorridas neste mês de junho, obtiveram grande repercussão por causa da algumas atitudes violentas. Se por um lado a ação de alguns manifestantes danificaram bens público e privados; por outro, a forma como o Estado reprimiu tais atos suscitou associações incômodas, dentre elas, destaca-se a memória da repressão praticada pela ditadura civil-brasileira (1964-1985).

No cerne dessa associação, as cenas de violência divulgadas pelos meios de comunicação e, sobretudo, postadas nas redes sociais, dimensionam a ideia de que parte da sociedade brasileira sente-se representada na ação dos manifestantes. Essa situação tem colocado na defensiva tanto o governo do Estado São Paulo, do PSDB, quanto o prefeito da cidade, do PT. Ambos sustentam a autorização do reajuste das tarifas dos transportes coletivos e, de modo direto ou indireto, apoiam a ação da polícia para manter a “ordem social”, divergindo apenas em relação ao uso desproporcional da força pelos policiais.

Mas, diante da repercussão observada, em particular a produzida pelas redes sociais, pode-se dizer que parte da sociedade passou a conferir mais atenção às ações dos manifestantes. É possível que essa repercussão esteja causando algum tipo de

incômodo a imagem de gestores públicos municipais, estaduais e do próprio governo federal, independente da legenda partidária. A intensidade desse incômodo pode fazer alguns desses gestores se preocuparem com algo mais que a realização de copas e dos Jogos Olímpicos. Seria esse um dos significados do que chamamos de “Revolta dos Centavos”, em alusão a “Revolta do Vintém”?

Agora, nas disputas entre as manchetes, a Copa das Confederações poderá sofrer concorrência de possíveis manifestações contra o aumento das tarifas de transporte coletivo. O que será feito disto? Será que a bandeira do não aumento das tarifas vai ser atendida? Outras bandeiras surgirão? “Novos” atores políticos surgirão? O Estado repensará sua forma de lidar com os manifestantes? A sociedade destinará mais atenção ao debate político? Estas e outras perguntas serão respondidas durante ou após a Copa das Confederações?

*Professor e historiador