O vidro fumê tem a sua utilidade, ele quer conservar a privacidade, quer uma certa impermeabilidade a olhares. Quem sabe faça sentido principalmente em carros, pra não deixar tão à vista os pertences ou os passageiros. Numa vitrine, talvez, pra conferir algum efeito visual. Andando pelo centro da cidade, no entanto, vi algumas janelas de um prédio comercial que me chamaram a atenção.

Entre janelas translúcidas por todas as alturas vi uma com uma película azul, um azul meio verde, que é azul? ou verde?, e causa discórdia. Olhando esse vidro berrantemente azul... eu devo ter achado um pouco de graça, porque com graça também perguntei “Por que, meu deus?”. Os pobres trabalhadores por detrás dessa janela devem ver dia após dia a cidade como que imersa em água tingida com anilina. Devem ter enxaquecas horríveis, náuseas marítimas e uma aversão a tudo aquilo que tem essa cor – o céu, os lindos olhos do Chico Buarque, aquele sorvete.

Qual o propósito desse vidro fumê? Em uma janela pelo menos no sétimo andar de um prédio não haveria grande prejuízo da privacidade. Seria por causa do sol? Em algum momento do dia ele acerta em cheio a sala e ofusca a luz convalescente dos computadores? Mas então por que azul, e por que película? Uma persiana, uma cortina de blecaute, gente. Quando a luz fosse muita, fecha; quando não, abre, e tem-se uma visão desimpedida da cidade.

Mais tarde, ao chegar em casa e abrir as janelas tive uma infeliz surpresa: também elas – toda e cada uma das janelas do meu apartamento – eram fumê. Por alguma razão os construtores se agradavam da ideia de um prédio com película escura, intransponível a olhos curiosos, sem pessoas ou móveis dentro, só escuridão e reflexo – o prédio é um sinistramente homogêneo obelisco espelhado. Como isso da película já viesse me incomodando, não aguentei ficar dentro de casa vendo o céu – que eu sabia estar branco – na cor sépia que o vidro lhe conferia, e desci pra rua pra tomar um ar e umas visões desimpedidas.

Já na rua notei, com certa perplexidade, que a sensação de opacidade que experimentara no apartamento me acompanhava ainda. O que será? Será a poluição? Mas não. Nem os gases de efeito letal da cidade eu via com clareza. Por que não?

Os meus óculos, é claro! São óculos de grau, mas então deviam ser meio fumê. Retirei-os, respirei fundo. Nada. Restava ainda uma camada de película, algum material opaco turvava a visão, e não tinha nada mais pra tirar da cara. Só, talvez, a cara.

*Tom Custódio da Luz, 22 anos, é escritor,compositor, cantor e músico. Reside em São Paulo.