Tu, alma, que não me apareces senão como uma sugestão, será que te esgotei? Será que fui marcado no corpo e me foi feito atentar, por isso, somente para os fenômenos que me acariciam ou ferem? Será que só olho a superfície do meu próprio corpo e por isso não te encontro? Mas tu deves estar também na superfície, tu não podes não estar em algum lugar – estás e és sempre. Por que não te vejo? Por que só posso te ver e no entanto não te enxergo? E como posso te reconhecer se, em verdade, nada há que seja menos ou mais do que tu? Se só há tu, como pode ser que justo a ti eu ignore? Para que atento, então? Se só posso te ver onde quer que olhe, como pode que te drenei dos meus olhares e me reporto a ti como um pronome na minha fala cega? Eu percebo que tu me incitas à tua compreensão, mas quando penso que te encontro não encontro senão outro capricho teu, um bilhete, uma indicação dúbia do teu paradeiro. Vou ainda e já fui muitas vezes às tuas casas, e descobri que nas tuas casas só havia engano. Tu mesma me levaras a estes endereços falsos, como se esperasses que eu me desse conta de que estiveras ali o tempo todo, como se esperasses ver na minha frustração o ensejo de te manifestares (ainda que não tiveste estado nunca escondida).

Não sei como tu me levas aos lugares e no entanto eu não me dou conta do teu toque na minha mão. É que és a própria faculdade do sentido que tem a minha mão, disso eu sei, e por isso eu te pressuponho. Penso assim: és, e o que se faz disso? Não podes nem posso ser somente, devo fazer algo, devo te encontrar (mas se nunca te deixei) no esmero e no produto do labor. Não te encontro, é claro, porque te procuro. Os olhos veem, o coração bate e a despeito de tudo o que há para ver e sentir, os olhos veem e o coração bate. Eu quero que o coração bata “quando”, “onde” e “por que”, mas debalde: ele bate aqui e agora e saber os porquês é confundir o coração com o conceito de coração.

E não te encontro. Te justifico, te reafirmo, te faço apologias e digo palavras bonitas a teu respeito, mas tu segues tão omissa, minha alma, que tu não existes e tudo o que eu faço acaba por ser a prática de uma religião do vazio, demagogia.

Penso em ti todos os dias. Penso em te encontrar. Penso excessivamente, compulsivamente, obsessivamente, louca e inevitavelmente eu penso – mas tu não és tão pequena que eu possa te capturar inteira com esse cacoete. Tu és o meu próprio cacoete e todo o resto. Eu insisto em que tu te mostres para mim mas tu és os olhos com que eu te veria. Tu és o invisível que sustenta o visível. Hoje pensei que só posso conhecer a solidão tendo conhecido a união e só posso perceber que estou acompanhado porque, na verdade, sei o que é estar só. No mundo das coisas, onde vivo, só vejo coisas e mais coisas e conheço-as como tais; mas só posso vê-las como coisas porque as conheço também como não-coisas. Só posso compreender a desunião e a dessemelhança entre as coisas porque conheço a unicidade e igualdade delas. E este conhecimento, onde está? Porque eu intuo que esse conhecimento seja tu mesma. És o primeiro conhecimento, a base de que faço uso para alçar voos intelectuais e discriminatórios, és a não-coisa (ou seja, o Nada/Tudo). Eu não te conheço, quer dizer, eu não te vejo porque és para mim somente um primeiro pressuposto para alcançar “o que realmente importa”.

E tu, que és enjeitada por mim, menosprezada, que diariamente és de novo crida como ignóbil e indigna, mesmo assim tu não me deixas, afinal continuo te escrevendo e mentindo que desejo te ver – és tu quem mente e se esquiva de ti própria. Eu, eu persisto gozando a presunção de que posso estar apartado de ti, mas como poderia quando a mão que agora te escreve é a tua própria mão e os olhos que te procuram e não encontram, ainda que cegos e tolos, são os teus próprios olhos?

*Tom Custódio da Luz,22 anos, é escritor,compositor, músico e cantor. Reside em São Paulo.