Quando visitava, mesmo no fim de semana, a avó acordava cedo, então ele punha o despertador do relógio de pulso que normalmente ficava na gaveta pra tocar perto do nascer do sol. Escovava os dentes, se arrumava, juntava seus bonecos numa bolsa e esperava a avó sair do quarto pra ir ao banheiro. Nisso, se esgueirava porta adentro. Ao voltar pro quarto ela dava com o garoto brincando com seus bonecos sobre o lençol desarrumado. A avó, então, dava bom dia e deixava a cama por fazer. Como ela não visitasse com frequência, quando vinha ele brincava todas as manhãs sobre a sua cama. Fazia isso porque gostava do relevo natural do lençol desarrumado e usava dele como cenário onde os personagens seus bonecos viveriam. Os amontoados da roupa de cama eram morros, às vezes dois frisos paralelos faziam um rio, e havia sempre um lugar plano onde se podia guerrear à vontade. Quando brincava na cama em que a avó dormira imaginava ruínas antigas ou cidadezinhas do interior, na da irmã via cemitérios hardcore e na da mãe lugares ermos e idílicos. Na sua própria cama não conseguia brincar, apesar de ter tentado algumas vezes; não via então no desalinho do lençol nenhum relevo claro e nenhum lugar lhe vinha à mente pra atribuir às formas que via. Foi mais ou menos à época em que começou a aprender a ler e escrever que notou que se operava uma mudança nessa sua brincadeira.

Neste tempo a mãe todos os dias desenhava letras com ele num caderninho de caligrafia, e tentavam os dois juntos ler palavras em revistas e livros infantis. Da mesma maneira que nas suas brincadeiras os frisos da roupa de cama viravam as montanhas, os desenhos no papel indicavam também outras coisas além do seu próprio traço. Algumas letras lhe pareciam ser mais fortes e mais bonitas que outras (o tê esmagador, o éfe cortante, também aquela sem som, misteriosa). De repente notou que sabia todas as letras das placas e embalagens. Exaustivamente informava letra por letra de páginas de revista pra mãe. E até as dobras do lençol progressivamente semelhavam letras, os vales pareciam vês e ípsilons, custavam a ser só relevo; era mais penoso encontrar o cenário dos seus jogos e mesmo nas camas de outros que não a sua não entendia bem as formas que via.

Durante a alfabetização conheceu um vocabulário novo e cada vez mais imaginava os universos particulares que cada palavra evocava – “bosque” causava um sentimento bom, calmo e parecia que ia junto com “árvore”, “silêncio” e “neblina” – e muito, muito mais tarde o garoto passou a imaginar o universo de todas as palavras juntas, num emaranhado só. À medida em que as dobras do lençol iam se tornando mais complicadas de decifrar, os desenhos das letras se tornavam mais claros; tão claros ao ponto em que ele não podia mais olhar pra uma palavra só admirando as formas, sem lê-la; nem olhando de rabo de olho, de cabeça pra baixo e com os olhos semicerrados escapava a isso, acabava lendo mesmo sem querer.

A última vez que ele brincou de boneco olhou pro leito com paciência e de vários ângulos, mas não conseguiu acreditar com firmeza nos relevos que apareciam. Repetidamente, contrariamente ao que sempre fizera, interveio nas dobras naturalmente formadas pelo corpo que passara a noite ali, pra evidenciar os rios, os morros, que, mais do que nunca, relutavam em ser mais do que maçarocas de pano branco. Desta última vez, por fim, ele desistiu do cenário. Fez a cama, deixou o lençol lisinho e pôs os bonecos a brigar e gritar palavras raivosas sobre a superfície irrelevante.

Tom Custódio da Luz, 22, escritor, compositor, cantor e músico, reside em São Paulo(SP). Seus artigos pode e estão sendo publicados pelo País, inclusive no exterior. Mais de 40.000 curtidas em seu FB e mais de 9.000 exibições de sua Música (E Agora,Tião?) no YouTube.