O Brasil foi o país que mais importou escravos africanos e o último que aboliu a escravidão (apenas em 1888) em relação ao contingente negro mundial só ficamos atrás da Nigéria, aproximadamente oitenta milhões de brasileiros, o que corresponde a 46% população.
Ao ver Lázaro Ramos esbanjando talento protagonizando o primeiro herói negro na teledramaturgia, na novela de Aguinaldo Silva, Duas Caras da TV Globo/2008, e mais, vivendo um tórrido romance com a mocinha branca, Débora Falabella, havemos de concluir animados que: “oba! O Brasil venceu a si mesmo!”, calma aí que há poucos dias uma montagem em que a imagem do presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, aparece associada à de um macaco causou repulsa em alguns e curiosamente o movimento negro, não se movimentou – com o perdão do trocadilho.
Deixemos a inércia do movimento para outro momento, porque cumpre dizer, que sem tanto otimismo assim, estamos vivendo uma realidade diferente, para se ter uma ideia, a novela mais vista da história chama-se “Escrava Isaura/1976” de Gilberto Braga, para o sacrifício da lógica, era uma escrava branquinha como uma nuvem. Como uma escrava ou descendente de escravo poderia ter as características de Lucélia Santos?
O diretor da novela, Herval Rossano, alegou que a cor da atriz não era uma questão relevante “não foi pensado se a atriz precisava ser descendente de negro, não se pensou nisso, foi coincidência mesmo que ela fosse tão branca como a Lucélia”. Faltou ao diretor e à emissora coragem/ vontade de escalarem uma atriz negra para a protagonista. Em momento especial para o Brasil, e para os afrodescendentes, pois a novela refletia o quase centenário da Abolição.
Repetia-se nas novelas o que já acontecerá à literatura, e assim podemos analisar que nos primeiros 50 anos de telenovelas no Brasil, ao negro couberam sempre os papeis marginalizados, portanto, Lázaro hoje diz muito sim. E por que a novela? Goste ou não, e telenovela reflete bem o que pensar a nossa sociedade, e mais, com um reflexo absolutamente progressista de vanguarda, vejam a questão gay, por exemplo, mas no saco específico dos negros, sempre foi conservadora.
Hoje o negro está nas universidades, está na disputa pelo mercado de trabalho, porém, alguém sustenta que com as mesmas condições dos brancos? Sim, é preciso assumir o que somos em primeiro lugar, e aqui somos misturados, então porque a cor da pele muitas vezes é uma barreira? Não se trata de alimentar o ódio e o revanchismo entre aqueles que lutam por igualdade e os outros que se recusam a aceitar qualquer reparação. Mas corrigir deformações e injustiças históricas, a partir do momento em que nos conscientizamos delas.




